Prezada internauta,

Esta é uma carta a respeito do uso do Citotec para fins de aborto. Tomei conhecimento do pedido de esclarecimento de várias pessoas e creio que tenho muita coisa importante a lhes dizer. Antes de usar o citotec, seria bom que soubessem que não é possível que este remédio seja usado em casa, para fins de abortamento, não pelo menos com uma técnica correta e sem graves conseqüências. Gostaria que lessem com atenção esta exposição, fruto de uma razoável experiência com o assunto e procurassem entender bem do que se trata e se esta é a melhor escolha que alguém e seu companheiro possam fazer. Posso falar-lhes com segurança sobre as coisas que escrevo abaixo pois conheço muitas pessoas que se envolveram desastrosamente com ele, e muitas que deixaram de fazê-lo também. Algumas inclusive perderam a vida por causa dele. Espero que esta mensagem possa ajudá-la se ainda há tempo.

O Citotec foi desenvolvido com outro nome há cerca de vinte anos atrás, não para problemas de estômago nem para provocar abortos, mas para produzir contrações no útero quando era necessário apressar o parto ou expulsar um feto já morto do útero de uma gestante. Passados dez anos a droga ainda não tinha saído de seu estágio experimental, mas com a descoberta das qualidades terapêuticas de seu princípio ativo no tratamento de úlcera, deixou de ser pesquisado principalmente para produzir contrações no útero para apressar o parto e passou a ser comercializado para tratar úlceras. Mas, aos poucos, algumas pessoas descobriram que ele provocava o aborto, inclusive porque o fabricante escrevia na própria bula do remédio que este era contra-indicado para mulheres grávidas dado o risco de poder provocar um aborto. O remédio passou aos poucos a ser comprado, sem orientação médica, não mais para úlcera, mas para provocar o aborto, embora o laboratório desaconselhasse o seu uso no caso de gestantes.

Por causa de sua história, o remédio foi estudado e testado apenas para úlcera e não para abortos. Não houve por parte dos fabricantes estudos para viabilizá-lo tecnicamente para o seu efeito abortivo. Não há qualquer suporte técnico para quem use, sejam médicos ou leigos, este remédio para produzir um aborto. Tudo o que se conhece sobre ele a este respeito é o resultado de uma prática clínica muito informal, irregular e completamente assistemática. É algo muito diferente de um medicamento onde há multidões de professores e cientistas constantemente pesquisando, debatendo e aperfeiçoando o conhecimento sobre a ação e o uso do remédio.

O Citotec atua apenas, ao que tudo indica, provocando contrações de parto e a conseqüente expulsão do feto, em qualquer idade gestacional. Ele não age, portanto, sobre o próprio feto, apenas provoca a sua expulsão. O feto morre não por ter sido agredido, mas porque, se ele tem menos de seis meses, ao ser expulso morre asfixiado. Embora o feto tenha os pulmões formados a partir do primeiro mês de gestação, antes dos seis meses e fora do útero pode inalar o ar mas o oxigênio não consegue passar dos alvéolos para o sangue. O feto morre ao ar livre por asfixia, exatamente como ocorreria com uma pessoa que fosse estrangulada.

É importante, para entender o que acontece com a própria gestante ao resolver tomar o remédio, que se tenha em mente que o remédio nunca foi desenvolvido e testado para provocar o aborto, nem no Brasil nem em qualquer país de primeiro mundo. Este é o motivo que explica porque ele provoca resultados tão diversos e irregulares em várias gestantes que o tomam. No caso típico, algumas horas depois de ingerido, a mulher entra em trabalho de parto e expulsa o feto, mas mesmo depois disso as contrações tornam-se dificilmente controláveis. As dores abdominais são intensas, muito maiores do que se fosse um aborto natural, e a mulher pode começar a sangrar tanto e com tal volume crescente que é quase sempre obrigada a procurar um hospital. Em algumas mulheres sua ingestão não provoca efeito algum, nem mesmo a expulsão do feto; em outras, provoca apenas a expulsão do feto. Na maioria dos casos, porém, a expulsão do feto é seguida de hemorragias crescentemente violentas com o passar do tempo.

Não há assessoria médica para quem queira tomar Citotec, e também não há suporte técnico para os médicos – ainda que o médico requeira tal suporte – por parte dos fabricantes e dos seus desenvolvedores. O que há são os hospitais que resolvem ajudar as pacientes quando, apesar de tudo, o aborto foi provocado e consumado e a hemorragia se torna incontrolável; isto é, estes hospitais ajudam por causa da hemorragia e não por causa do aborto.

Mortes por hemorragias no uso do remédio não são muito comuns, principalmente, porque nos casos típicos, a hemorragia assusta tanto que a mulher invariavelmente acaba procurando um hospital. Mas, caso não procurasse, certamente o quadro hemorrágico crescente provocaria uma parada cardíaca. Às vezes, isto até ocorre, o que é narrado principalmente por médicos legistas de IMLs (Institutos Médicos Legais). Em alguns casos a hipersensibilidade da mulher para com o remédio pode ser tal que o remédio provoca uma ruptura repentina de útero, logo ao ser ingerido ou mesmo mais tarde. Isto pode ser fatal se não há a possibilidade de um atendimento médico e hospitalar imediato. A ruptura de útero pode se dar mais facilmente em mulheres que tiveram anteriormente um histórico com partos cesarianos ou em gestações mais avançadas. Se nada disso ocorrer e a hemorragia conseguir ser controlada em casa e isso não provocar a morte da gestante, coisa rara de acontecer, pode, no entanto, estar acontecendo outra coisa de muito risco. Restos fetais ou placentários podem ter sido retidos dentro do útero durante todo este tempo e ter provocado uma infecção local. Às vezes, o remédio produz o descolamento da placenta, com a consequente morte do bebê, mas o feto não é, todavia, expulso. A gestante pensa que não aconteceu nada, não procura o médico, mas está na realidade tendo um aborto retido. Tanto o aborto retido como restos fetais e placentários podem fazer com que pus se acumule no útero, tentando em vão destruir os restos fetais ou de placenta, que deveriam ter sido removidos por curetagem no hospital dias antes. As dores e hemorragias podem ter mascarado outros sintomas que fariam suspeitar para a gestante inexperiente que algo mais poderia estar acontecendo. À medida em que o pus se acumula, ele invade a corrente circulatória da gestante e espalha-se pelo corpo todo. Isto é conhecido pelo nome de septicemia. Quando se chega a este quadro a única conduta correta é a remoção dos restos fetais e placentários e a internação imediata da paciente em uma unidade de terapia intensiva. Há um certo número de óbitos por septcemia, mesmo com a internação em UTI, causados pelo uso do citotec. Muitos dos óbitos por aborto em geral e alguns causados pelo uso do Citotec são por septicemia. Se não ocorre a septicemia mas houve retenção durante algum tempo de restos placentários ou fetais, os tecidos já necrosados são difíceis de serem curetados; frequentemente junto com a remoção por curetagem destes tecidos é inevitável removerem-se também uma parte de tecidos endometriais, que é a parte mais interna do útero. As paredes internas ao útero que constituem o endométrio, por este motivo, acabam por aderirem-se uma à outra causando a esterilidade da mulher.

Mas a maioria das mortes por causa do uso do Citotec não provém nem da hemorragia, nem da septicemia. A maioria ocorre semanas ou meses após o uso, e não se deve propriamente ao uso do Citotec, mas ao uso caseiro do Citotec que, independetemente do que se pense sobre o aborto em si, jamais poderia ser usado sem acompanhamento médico. Há casos em que se usa o Citotec para expulsar um feto morto em um hospital. O modo e os cuidados com que o mesmo deve então ser administrado é muitíssimo diverso do modo como poderia ser usado em casa. Jamais passaria pela cabeça de nenhum médico receitar o Citotec para que a paciente expulsasse ela mesma um feto morto em sua própria casa. Isto seria um atestado de irresponsabilidade médica simplesmente inimaginável, mas é o que as pessoas dizem umas às outras ser inofensivo se se trata de expulsar um feto ainda vivo, isto é, se se trata de provocar um aborto. O uso doméstico do Citotec é muito traumático, mas, na maioria das vezes, não causa uma morte imediata diretamente relacionada com o mau uso do medicamento. A maioria das mortes ocorre por efeitos que se seguem muito tempo depois, como quando uma pessoa que é atropelada e fratura os ossos, meses após ter tido alta, acaba morrendo de complicações apenas indiretamente, mas realmente, relacionadas com as fraturas anteriores. Este tipo de acidente é muito mais comum com o Citotec do que costuma ser divulgado, e é bem conhecido principalmente entre os médicos legistas.

Por causa de todos estes problemas, depois de alguns anos que o remédio era fabricado e vendido regularmente sem restrição alguma, -oficialmente para úlcera, de fato em grande parte para provocar abortos sem possibilidade alguma de orientação médica, inexistente inclusive para os próprios médicos -, os abusos se tornaram tão grandes que o Ministério da Saúde no Brasil proibiu sua fabricação e distribuição por parte do fabricante oficial. Isto fez com que o acesso ao remédio diminuísse bastante. Por outro lado, como já havia se criado um bom mercado para o remédio junto ao grande e desinformado público, isto também fez com que aparecessem fabricantes clandestinos para a droga provenientes das mais diversas origens. Muitos dos comprimidos chamados agora de Citotec não são mais verdadeiros Citotecs, mas tem sua origem em fabricantes clandestinos de países pobres da América Latina (tipo Paraguai) e não se sabe ao certo se a fabricação é de lá mesmo ou se ali é apenas um posto de intermediação, nem se o fabricante verdadeiro é um, alguns ou mesmo quantos podem ser.

Hoje não é possível saber de onde vem e quem o fabrica, por mais que o vendedor dê garantias. O vendedor, na verdade, não tem tais garantias, nem as pode ter, já que o próprio fabricante é desconhecido do vendedor, do intermediário e até das autoridades da Saúde.

Nunca se sabe, portanto, o que está sendo comprado quando se compra Citotec. Pode ser uma droga igual ao antigo Citotec, pode ser uma mistura de Citotec com outras coisas, pode ser também qualquer outra coisa, e pode ser uma nova invenção de algum laboratório clandestino, tecnicamente competente ou não, que julga ter um remédio de efeito semelhante mas capaz de ser produzido de uma maneira mais fácil. É vendido, porém, sempre como Citotec, por causa da fama do nome que o remédio original conquistou no Brasil.

Tanto pela dificuldade de saber o que está sendo tomado, quanto pela ausência total de suporte médico ao ato, pelas hemorragias imprevisíveis e que são a regra mesmo quando se trata de Citotec verdadeiro, tanto pelas inúmeras e nem sempre facilmente controláveis conseqüências posteriores, quando o paciente já não está mais sob a direta observação clínica que se costuma seguir imediatamente após o uso, este método de aborto é, no português popular, uma desgraça. Tecnicamente é uma solução altamente deficiente e extremamente imprudente. Mesmo quem é a favor do aborto, mas tem uma formação médica correta do ponto de vista estritamente técnico, não poderia recomendá-lo como abortivo nem no primeiro nem no terceiro mundo. Para se ter uma idéia, ainda quando ele é usado para provocar contrações de parto em fetos já mortos que não conseguem ser expulsos, casos em que o remédio já foi melhor estudado e a conduta médica melhor estabelecida, isto nunca é feito em casa. Nestes casos, no Brasil, a paciente é internada em um hospital e o seu curso clínico é cuidadosamente monitorado; a paciente não recebe o remédio sem antes se submeter a exames e freqüentemente será necessário sedá-la para que ela possa tomá-lo. Uma equipe médica e uma sala de cirurgia deve estar pronta para qualquer imprevisível eventualidade que venha a ocorrer.

Nos Estados Unidos, ao contrário, o uso do Citotec para induzir o trabalho de parto é proibido até mesmo para os médicos. Nos Estados Unidos o aborto é legalmente permitido e não haveria problema de se aconselhar o Citotec como meio de provocar um aborto se ele fosse tecnicamente aconselhável para tanto. Tanto o governo como a empresa que o fabricam sairiam ganhando com isso. O governo, porque a técnica de aborto com o Citotec é mais fácil e rápida de ser executada, e o fabricante porque venderia mais o produto. No entanto, tanto a FDA (Food and Drug Administration), o organismo que controla a venda e o uso dos remédios nos Estados Unidos, como o próprio fabricante do Citotec, o Laboratório Searle, desaconselham o uso do Citotec para induzir o trabalho de parto e para o aborto, afirmando ser perigoso.

No ano 2000 cogitou-se, devido a questões técnicas, de aconselhar-se o uso do Citotec como técnica de abortamento em alguns casos nos Estados Unidos. A FDA, conjuntamente com o fabricante do próprio Citotec desaconselharam abertamente o uso do remédio a não ser para casos de úlcera, inclusive se feito sob supervisão médica. O comunicado conjunto do FDA e do Laboratório Searle datado do ano 2000, que pode ser lido no original no site

http://www.fda.gov/medwatch/safety/2000/cytote.htm

Neste comunicado pode ser claramente lido que o próprio fabricante do remédio afirma que

"Foram reportados efeitos adversos sérios no uso do Citotec em mulheres grávidas, que incluem a morte materna, ruptura e perfuração de útero necessitando de interveção cirúrgica e histerectomia (cirurgia para remoção total de útero), embolia por líquido amniótico, sangramento e choque. O fabricante não fez nenhuma pesquisa sobre o uso deste medicamento nem para abortamento nem indução do parto, não pretende fazê-lo e não está apta a dar suporte para este uso do medicamento".

Dois anos depois a Searle voltou a publicar as mesmas advertências, inclusive a de que haviam sido registradas mortes maternas por causa do uso indevido do Citotec nos Estados Unidos. O site americano www.birthlove.com comenta sobre este segundo comunicado:

"Em 17/04/2002 uma advertência revisada sobre o Citotec foi divulgada, devido ao fato de que os médicos americanos ainda estavam usando o remédio para induzir o parto, apesar de todas as advertências anteriores emitidas pela Searle".

Neste segundo comunicado da Searle, datado de 2002, pode-se ler novamente o seguinte:

"Maternal death have been reported. The risk of uterine rupture increases with advancing gestational ages and with prior uterine surgery, including Cesarean delivery".

"Mortes maternas tem sido reportadas. O risco de rompimento uterino aumenta com o avanço da idade gestacional e com cirurgias uterinas anteriores, incluindo parte casariano".

No site http://www.beyondfertility.com/art112.htm há um artigo intitulado "VBAC & Cytotec: A Dangerous & Deadly Combination", isto é, "VBAD & Cytotec, uma Perigosa e Mortal Combinação", no qual se alerta que

"até hoje o Citotec não foi aprovado pela FDA como uma droga para induzir o aborto ou o parto, mas o seu uso se tornou alarmantemente disseminado. Os médicos, crendo que é muito mais barato e rápico induzir o parto por meio desta droga, administram a droga com freqüência. As histórias dos riscos e das mortes associadas com esta droga se tornaram clamorosas e assustadoras. O citotec está associado com um maior número de casos de rompimento uterino. Em alguns casos a ruptura uterina não ocorre imediatamente. As mulheres continuam o parto normalmente até experimentarem um dos conhecidos sintomas de rompimento uterino. Em outros casos as contrações uterinas violentas podem ocorrer logo após a primeira dose, e podem resultar em rompimento do útero. Se o citotec é administrado fora de um estabelecimento hospitalar, ou quando um médico não estiver presente, o resultado poderá ser fatal. Infelizmente os riscos associados com o Citotec não são amplamente conhecidos e a maioria das mulheres, ao usarem a droga, são as últimas a saberem. Esta droga, com seus efeitos colaterais mortais, é ainda usada em centenas de hospitais, sem consideração por seus riscos potenciais".

No original:

"At this time Cytotec has not been approved by the FDA as an induction drug, but yet it's use as one has become alarmingly widespread. Physicians, finding it a much cheaper and quicker way to induce labor in full term pregnancies, administer the drug on a frequent basis. Since it's use as method of labor induction, stories of the risks and deaths associated with this drug have become rampant and frightening. In some cases, uterine rupture does not occur immediately. Women continue to labor normally, until they experience one of the common symptoms of uterine rupture, including a "popping" sound, severe abdominal pain, or bleeding. In other cases, violent contractions can occur after the first dose, and can result in uterine rupture. It is also important to note that the risk of placental abruption can drastically increase for women with prior uterine incisions. If Cytotec is given out of a hospital setting, or when no doctor is present, the results can be fatal. Unfortunately, the risks associated with Cytotec are not widely known, and most women, undergoing an induction with the use of the drug, are the last to know.

Yet this drug, with it's deadly side affects is still used in hundreds of hospitals, by hundreds of doctors, without regard for it's dangerous potential".

Estas coisas são até bastante óbvias, e podem ser constatadas mesmo nos países do terceiro mundo. Não é a visão de muitos médicos da América Latina, que afirmam que o uso do Citotec diminuiu a mortalidade materna em seus países. A premissa é correta, mas a conclusão é falsa. O uso do citotec, ainda que clandestino e sem orientação médica, diminuiu os indices de mortalidade materna em vários países da América Latina como conseqüencia do aborto. Mas a diminuição da mortalidade materna pelo uso do citotec não muda a natureza técnica do procedimento. Se você tem dois métodos para executar uma roleta russa e o segundo causa menos mortes do que o primeiro, nem por isso o segundo deixa de ser uma roleta russa. Quem disser o contrário está maquiando a realidade, e é um dever de quem conhece as coisas chamá-las pelo seu próprio nome e natureza. Quando as pessoas são a favor do aborto e vêem no citotec um meio de favorecê-lo, podem se aproveitar disto e se concentrarem em dizer que o uso do citotec diminuiu a mortalidade materna sem explicarem mais nada a respeito. Mas o fato é que o uso caseiro do citotec não é um método recomendável de aborto e, nos Estados Unidos, as autoridades federais de saúde e o próprio fabricante do remédio, que teria todo o interesse de dizer o contrário em um país onde não há entraves legais ao aborto, dizem que não é recomendável inclusive com assistência médica. Eu mesma no Brasil posso dizer que já conheci três casos de morte materna pelo uso do citotec e ouvi falar por outros profissionais da saúde de mais outros. É menos do que os de que tomei conhecimento há mais de dez anos atrás, mas são fatos verídicos. A verdade é que nenhum aborto, nem por citotec nem pelos métodos tradicionais, mesmo supondo que não houvesse graves questões morais nesta prática, coisa que ninguém pode negar que haja, poderia ser tecnicamente bem feito se não houver a disponibilidade imediata de um centro cirúrgico completamente equipado para internar a paciente em caso de qualquer eventualidade. Um aborto, mesmo que realizado por um médico, não poderia jamais ser feito em uma clínica que não estivesse dentro de um hospital completo, a menos que houvese algum acordo entre a clínica e outro hospital para a remoção imediata da paciente em alguma eventualidade. Do contrário, o aborto seria uma roleta russa, um jogo em que uma pistola é carregada com apenas uma única munição e aposta-se que quando o jogador atirar contra ele mesmo ele terá a sorte de que, naquele tiro, a arma não dispare a única munição com que está carregada. Temos muitos exemplos, inclusive extremos, de que, ainda que feito por um profissional competente, o aborto é de fato uma roleta russa quando não se dispõe de todas as facilidades de um hospital com centro cirúrgico de retaguarda. No caso do citotec, apesar de ser um método comparativamente mais brando do que os que se usavam quinze ou vinte anos atrás na América Latina, o procedimento continua a ser bastante grave porque na maioria dos casos quem faz toda a primeira parte do aborto é uma paciente leiga no assunto e ela terá toda a inclinação para, se não ocorrer um sangramento assustador, não encaminhar-se a um profissional médico para a segunda parte do procedimento, pensando que poderá cuidar sozinha de si mesmo. Se, depois de tomar o remédio, suceder qualquer coisa que não seja o curso normal do que ela ouviu dizer que deveria acontecer, a paciente poderá não saber o que deverá fazer em seguida e não perceberá por que deveria procurar um médico. Se após a ingestão do remédio houver um sangramento incomumente abundante ela poderá apresentar-se ao médico imaginando que não precisará dar maiores explicações mas, se este sangramento não ocorrer, a paciente, além de não entender por que motivo deveria apresentar-se ao médico, também não saberia como explicar-lhe o que aconteceu sem delatar-se. O fato de que a mortalidade materna tenha diminuído com o uso deste medicamente não significa que ele não cause todos os efeitos de que estou falando. A própria lista do Searle não é completa porque, na maioria dos casos, ela está listando apenas as complicações que ocorrem quando o Citotec é usado com acompanhamento médico. Não se fala de esterilidade, por exemplo, porque este efeito se deve mais ao uso do Citotec que não foi imediatamente acompanhado por um médico. A septicemia pode ocorrer principalmente quando o uso não é acompanhado por um médico.

Tudo isto é muito diferente do que as pessoas são levadas a pensar que seria o uso normal deste remédio. No Brasil tem havido uma espécie de euforia nos meios médicos nos últimos anos devido ao fato de que o uso do Cytotec tem diminuído a taxa de mortalidade materna nos casos de aborto provocado. Esta euforia, baseada em fatos reais, tem, paradoxalmente, contribuído para mascarar os riscos a que a automedicação pelo Cytotec para fins de aborto pode conduzir. Isto, conjuntamente ao fato de que o baixo custo da droga obtida legalmente tem favorecido o seu uso hospitalar, tem levado muitas pessoas sérias à tendência de sub avaliar perigosamente as conseqüências que na realidade a prática da auto medicação possui nestes casos e a negar fatos que seriam mais facilmente avaliados se o ambiente no meio médico brasileiro fosse diverso.

Em 1993, quando este ambiente era bem diverso e ainda não havia esta euforia, foi publicado na Lancet inglesa um estudo de casos de abortos provocados por Cytotec no Rio de Janeiro feito por dois médicos brasileiros, S. Costa e M. Vessey ("Misoprostol and Illegal Abortion in Río de Janeiro"). Eles encontraram que em 458 casos de mulheres que usaram o Cytotec houve três mortes, 2 septicemias e uma ruptura de útero. Em um artigo mais recente na literatura médica (Daisley H J: Maternal mortality following the use of Misoprostol, Med Sci Law 2000 Jan;40(1):78-82) são reportados três casos de morte materna devido ao uso do citotec, dois ocorridos na tentativa de um aborto ilegal por automedicação e um terceiro ocorrido após a uma ruptura uterina em seguida ao medicamento ter sido usado por médicos para a indução de um parto. A possibilidade de septicemia e de mortes em conseqüencia da automedicação pelo Cytotec pode ser averiguada até hoje no Brasil. Eu mesma, conforme mencionei acima, já conheci três casos e conheço outros profissionais de saúde que me reportaram ter conhecido outros. Todos eles foram produtos da automedicação pelo Cytotec.

Tal como no uso de drogas, em que as pessoas frequentemente são levadas a pensar que é a melhor coisa do mundo se as souberem usar com critério, mas mais tarde amargam tristes conseqüências, assim também ocorre com o Citotec: as pessoas são induzidas a pensar que é a melhor coisa do mundo se o souberem usar criteriosamente, mas nunca se explicam claramente as conseqüências que daí podem advir. O motivo para que se escondam estes fatos é que em ambos os casos, no da droga e do Citotec, há uma rede clandestina de criminosos que distribuem ambas, para os quais interessa que a verdade não venha a público, ou pelo menos que não venha a um certo público alvo, dentro do qual provavelmente vocês devem estar incluídas.

Há uma diferença, no entanto, que faz com que no Citotec a ignorância seja muito maior do que no caso das drogas. Ao contrário do verdadeiro tráfego de drogas, o Citotec não causa dependência por toda a vida; todo o dano que ele pode fazer o faz imediatamente ou num prazo relativamente curto e, depois, ou se conserta ou não se pode consertar mais. Não é como no caso dos dependentes que, à medida em que o tempo passa o problema sempre fica mais grave e algo, embora sempre mais difícil, precisa ser feito cada vez com mais urgência e desespero. No caso das drogas isto faz com que acabe havendo uma pressão social maior para que haja um certo esclarecimento do público que, no caso do Citotec, não existe absolutamente. As pessoas se iludem com extrema facilidade de que é algo seguro, mas a verdade é que não é e não poderá sê-lo, pois não é o mundo da da ciência que está por trás da automedicação pelo Citotec, mas o mundo do crime. Eu jamais tomaria um avião para o qual houvesse, para falar o mínimo, 10% de chances de acabar internado em uma UTI antes de chegar ao meu destino, mesmo que conhecesse nove pessoas que conseguiram terminar a viagem.

Espero que este texto seja de ajuda para vocês. Não estou exagerando, contei as coisas como elas são. Se vocês não tem certeza se é realmente assim, esperem alguns dias, levem esta mensagem para quem realmente conhece o problema e tirem o assunto a limpo. Adiar o aborto alguns dias não irá impossibilitá-las de fazê-lo mais tarde, principalmente quando se está logo no início da gravidez; mas fazê-lo imediatamente poderá fazê-las incorrer, sem necessidade, em tudo o que lhes estou descrevendo nesta mensagem.

Gostaria ainda de aconselhar-lhes a consultar os dois seguintes endereços onde podem encontrar muitas informações sobre o aborto, não apenas sobre o citotec. Antes de fazer qualquer coisa séria, é preciso pensar e refletir também seriamente. De cem pessoas que num consultório médico dizem que pretendem fazer um aborto, frequentemente 50 realizam o aborto e 50 desistem ou não o conseguem. Das que desistem, nunca vimos ninguém se arrepender de ter desistido, não importa quão graves fossem os problemas que tiveram que enfrentar para isto. Das que não desistem, a maioria amarga tristemente esta decisão para o resto de suas vidas. Algum motivo deve haver para isto, e um deles é certamente o não terem querido se informar com calma sobre todos os ângulos sobre o que estavam fazendo. Por isso, peço-lhes que, no interesse de vocês mesmos, não apenas no do seu bebê, não deixem de examinar com atenção todo o conteúdo deste site. Ao contrário desta mensagem, que está em português, os sites abaixo são inteiramente em castelhano. Para quem sabe português, é muito parecido; para os de língua espanhola, já estão em casa.

¿Pensando en abortar?

Ayuda e Información en Linea

Neste outro site vocês podem encontrar também em português uma explicação bastante clara sobre os riscos de outras técnicas de aborto:

http://members.fortunecity.com/elianemonteiro/aborto01.htm

Um beijo a ambos. Espero que tenha podido ajudar. Escrevam-me se quiserem. Ficarei feliz em receber algumas palavras suas.


Eliane Monteiro

monteiroeliane@hotmail.com